Pouco mais de duas décadas depois de mandar matar os próprios pais, Suzane von Richthofen, hoje com 42 anos, resolveu remexer o próprio passado. Em um documentário inédito, ela aceitou revisitar o crime pelo qual foi condenada a 39 anos de prisão, pena atualmente cumprida em regime aberto. Na obra, ela concede entrevista e reconstrói, sob sua própria versão, a história que se tornou um dos casos mais emblemáticos do país.
Por ora, o longa-metragem de quase duas horas só foi disponibilizado pela Netflix numa pré-estreia restrita. Ainda não há data oficial de lançamento. No documentário, o relato da parricida começa pela infância. A casa que, anos depois, serviria de palco para a morte dos pais, Manfred e Marísia von Richthofen, é descrita por ela como um ambiente sem afeto, marcado por cobrança e silêncio emocional.
Segundo o relato, esse cenário teria contribuído para o rompimento com os pais e para a aproximação com Daniel Cravinhos, que, junto com o irmão Cristian, executou o crime.
O longa mostra como o relacionamento com Daniel evoluiu para uma vida dupla, com mentiras e enfrentamentos constantes dentro de casa. Suzane afirma que a ideia do assassinato foi construída gradualmente e admite responsabilidade ao reconhecer que permitiu a entrada dos executores na residência, embora sustente não ter participado diretamente da ação.
O documentário também aborda a noite do crime, quando ela diz ter permanecido no andar de baixo, ciente do que acontecia. Em diferentes momentos, descreve o próprio estado emocional como “dissociado”, mas reconhece que poderia ter impedido o desfecho.
Outro ponto explorado é o período após o crime, incluindo versões controversas sobre seu comportamento nos dias seguintes, contestadas por ela no filme. A obra ainda evidencia a falta de confrontos mais incisivos durante a entrevista, o que levanta questionamentos sobre a condução do documentário.
Além da reconstituição do caso, a produção expõe a vida atual de Suzane, hoje em regime aberto, mostrando sua rotina familiar, o casamento com o médico Felipe Zecchini Muniz e a convivência com o filho.
No trecho final, Suzane tenta estabelecer um rompimento definitivo com o passado e com a própria imagem associada ao crime. Afirma que a mulher que participou do assassinato dos pais deixou de existir. “Aquela Suzane ficou lá no passado. A sensação que eu tenho é que ela morreu junto com os meus pais”, comparou. Segundo ela, hoje é “uma outra pessoa”, transformada ao longo dos anos.
Ao falar de fé e redenção, Suzane diz que encontrou no filho a prova concreta de que o passado ficou para trás. “Quando eu olho para o meu filho, eu tenho a certeza de que Deus me perdoou”, elucubrou.
Ainda assim, a assassina condenada reconhece que não consegue escapar da própria história. “Você entra num lugar e parece que o ar para. Todo mundo olha. ‘Olha, a Suzane’”, relatou, com ar de celebridade. Ela diz ser constantemente reconhecida e fotografada, inclusive em situações banais do dia a dia. “Quantas fotos minhas, às vezes, no supermercado... a pessoa tirando foto”. |